A sinfonia da natureza é uma sinfonia de conexões. Tocamos todos juntos, não importa o quão perto ou o quão longe no tecido do espaço-tempo. O conhecimento científico não é inerte e estéril, como várias pessoas podem pensar. Ele nos coloca em contato com nosso lugar no Universo. E então o lugar que ocupamos se mostra: é minúsculo, raro e extremamente belo. Somos uma espécie com um poder de percepção relativamente aguçado. Podemos experimentar, indagar, saborear as nuances de nosso cotidiano, desde a sensação gelada e doce de um sorvete de passas ao rum à sensação de perplexidade diante da vastidão das estrelas num céu de inverno. Estar vivo é estar desperto. A consciência deve ser reclamada como um direito inalienável a cada ser humano sobre a Terra. Se eu pudesse lhe dar um conselho, seria este: Não ceda. Não ceda às inúmeras distrações superficiais que lhe são oferecidas, diariamente, numa bandeja de prata. O ato da contemplação não precisa do tênis da moda, da tela LCD, de muitos amigos. Contemplar é um ato muitas vezes individual, de introspecção: um aprofundamento nas questões banalizadas pelo olhar cotidiano. Através deste ato podemos perceber questões profundas ao nosso ser, questões estas que podem nos afligir se não forem indagadas com serenidade. Contemplar exige serenidade. A contemplação não exige hora, nem lugar. Por exemplo, se você se encontrar em uma praia, à sombra de uma árvore, sentada na areia, como eu estava hoje. Você pode estar preocupada com o bronzeado, com a barriguinha de cerveja, com a areia que gruda, ou até mesmo com o final da novela. Você não está vivendo aquele momento, está fugindo dele. A maioria das pessoas passa suas vidas inteiras tentando abstrair do fato de que estão vivas, respirando, e de que sua passagem por esta existência é efêmera e fugaz. Tente pegar um momento de sua vida e analisar o que lhe cerca. A situação da praia foi um belo momento de contemplação. Primeiramente olhei para cima: vi as folhas do sombreiro, rijas, mas balançando ao vento. Observei suas nervuras, imaginei a seiva percorrendo cada pequeno filete daquela estrutura, partindo de sua raiz, escondida sob o solo arenoso, até o topo, longe da minha vista. Como aquela árvore consegue captar e distribuir a seiva tão eficientemente? Tornei minha observação novamente para as folhas, pensando nos cloroplastos que estavam, naquele exato momento, tornando possível o processo de tradução da luz do Sol em verde novo, em vida nova. Pensei nos estômatos, no processo de respiração daquela árvore. Naquele exato momento, muito perto de mim, ela estava liberando tanto gás carbônico quanto oxigênio. Eu estava respirando o oxigênio liberado por ela, e ela absorvendo o gás carbônico da minha respiração. Meu corpo estava captando, a partir dela, o elemento necessário ao meu processo de transformação da matéria orgânica em energia para continuar viva, e o elemento expelido neste processo estava sendo absorvido por ela para a realização de seu próprio sistema metabólico de produção de energia. Respirei fundo, estávamos conectadas. Olhei então para baixo: meus pés sentiram a areia. Cristais de quartzo, brilhantes, milenares, retrabalhados por inúmeros processos geológicos, transportados sabe-se lá de onde, quentinhos pela luz do sol, tocaram minha pele. Olhei então para as montanhas que delineavam a enseada onde eu me encontrava, e fenômenos geológicos ainda mais antigos tomaram conta da minha imaginação. Como aquela cadeia de montanhas se formou? Minha vida virou um piscar de olhos perante a vastidão daqueles processos. Minha atenção foi chamada então pelo barulho do vai-e-vem infinito das ondas: pensei em seu nascimento, no oceano aberto. A rotação da Terra e o aquecimento diferencial pelo Sol de pontos diferentes do planeta geram os ventos que, agindo na superfície do mar, vem a criar o trem de ondas que agora vejo terem sua energia dissipada na borda na grande bacia oceânica. O Sol. O Sol servindo de alimento ao sombreiro, esquentando a areia, iluminando o verde da cadeia de montanhas, gerando os ventos que geram as ondas. Penso então sobre o Sol, inundando tudo de vida e luz: o mar, com seus microorganismos assimilando sua energia e transformando toda a teia de vida que pulsa abaixo da superfície do oceano, numa miríade psicodélica de formas e cores. O Sol, uma estrela secundária, originária da explosão de uma estrela maior, cuja poeira veio a formar tudo o que posso observar naquele momento: minha pele, a atmosfera azul, as conchas, a areia, as árvores e as gaivotas. Todo e cada ser conectado. Cada átomo que meu olhar pode alcançar naquele momento pulsava, ligado a todos os outros, numa harmonia dinâmica e poética. Essa é a riqueza que ganhamos com a contemplação. Concentrar-se no que não estamos acostumados pode ser muito mais libertador do que previamente poderíamos esperar. Silenciar nossa mente para as pequenas futilidades do individual e abrir nossa mente para os processos poderosos, a torrente de informação dos processos naturais. A contemplação não exige um ambiente paradisíaco, como o citado acima. Meditar é um dos processos mais antigos do que chamo contemplação. Perceber o mundo não é necessariamente olhá-lo com olhos científicos, como mostrei acima. Muitas vezes perceber o mundo está em não focarmos em nada específico, ou apenas focarmos em nossa respiração. Afinal, cada processo e átomo estão conectados: somos fractais de energia, somos o Universo a se conhecer.
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Contemplação
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Conexões obscurecidas
but the sun is eclipsed by the moon.”
Pink Floyd - Eclipse


quarta-feira, 1 de junho de 2011
Assistindo o Rio Fluir
São tempos difíceis para aqueles que estão despertos. Despertos e conscientes da nossa íntima ligação com os processos naturais, nosso lugar no Universo, os processos que regulam nosso corpo, nossa sociedade, os ecossistemas terrestres. São tempos difíceis para aqueles que acreditam em uma vida harmônica com a Natureza, uma vida não dependente de ações degenerativas do meio em que vivemos. Eu vejo as lágrimas de povos milenares que são usurpados de suas terras, eu ouço o ranger das árvores caindo ao toque da pesada corrente, eu sinto os rios sufocarem, como se meu próprio pulmão lutasse em angústia por um pouco de pureza. São tempos difíceis. Meu olhar, por não conseguir suportar a dor da ignorância alheia, tanto daqueles que nos “governam”, quanto daqueles tristemente governados, se volta para o céu. Eu penso no Big Bang, penso na Teoria das Cordas... penso em um Universo que pulsa, penso em trilionésimos de segundos e em bilhões de anos... penso em sub-partículas e na dança das galáxias. E assim, minha consciência evade... Minha própria escala espaço-temporal é por demasiado perturbadora: faço, contra minha própria vontade, parte de um suicídio em massa. Afinal, com todos os dados científicos dos quais dispomos atualmente, que outra conseqüência pode-se esperar da dizimação do que ainda nos resta de florestas, rios, biodiversidade? É uma conta de 2+2 que parece difícil de entrar na cabeça daqueles que tem que se preocupar com seus milhões advindos da agropecuária que avança em solo amazônico, ou daqueles que querem garantir a teta profícua lá em Brasília.
Mas os processos naturais não estão nem aí se fulano quer andar de Learjet. E é assim que eu gosto de admirar o dinamismo da Terra: sob a perspectiva cósmica. E então eu vejo aqueles que votaram a favor do novo Código Florestal e aqueles que liberaram a licença para Belo Monte sendo afogados no rio do Tempo, fagocitados pelas conseqüências ambientais dos seus próprios atos gananciosos e ignorantes. Sem prejudicar em nada nossa linda esfera Azul. Pois, como diria o saudoso George Carlin: “O planeta? O planeta vai bem... as PESSOAS é que estão fudidas!” A Vida existe nesse planeta há mais de 3.5 bilhões de anos. Ela surgiu quando este ainda era uma bola de lava recém resfriada, com uma atmosfera repleta de metano e violentos bombardeios de meteoritos. E nós, quem somos? Uma espécie recente e burra – no máximo. E esse pensamento me acalma. Porque, sinceramente, diante de tanta palhaçada, a única vontade que eu tenho – como diria a letra do Dylan - é a de sentar nesse banco de areia e assistir o rio fluir.
quinta-feira, 7 de abril de 2011
Sobre a cegueira social
Sobre a cegueira social
Tudo que existe, só existe através de nossa percepção. Schopenhauer diria que não existe uma terra, não existe um sol. Existe, sim, uma mão que toca a terra e olhos que captam a luminosidade do sol. Toda nossa noção de mundo e realidade passa através de nossa percepção.
E quando não percebemos, enquanto sociedade, certos aspectos do mundo que nos rodeia?
Microorganismos não existiam até o final do século XVII, quando Antonie van Leeuwenhoek observou os primeiros seres aos quais deu o nome de “animálculos”. Bactérias passaram a existir somente quando alguém as observou e indagou sobre a existência das mesmas. Existem outros exemplos: para muitas pessoas ao redor do mundo, em pleno século XXI, pareceria no mínimo uma grande bobagem argumentar que a Terra gira em torno do Sol e que existem muitos outros planetas, gigantes gasosos, luminosas nebulosas, buracos negros super massivos no centro de galáxias com bilhões de sóis.
Estas entidades não existem e nunca existirão para a grande maioria da população mundial. Muitas destas pessoas não chegarão a ter educação suficiente para que este conhecimento seja real, para que possa pertencer a suas realidades cotidianas. Mas, onde reside o perigo nessa história? O perigo reside justamente na falta de referenciais, sejam estes históricos, astronômicos ou biológicos, para a construção do ser social. Quando elementos importantes para uma percepção acurada da realidade estão faltando, cria-se um nicho fértil para a manipulação de massas. Com efeito, uma educação falha, superficial e estéril é a principal ferramenta de dominação através dos séculos. A supressão do registro histórico de lutas sociais, assim como a negação do aspecto biológico e evolutivo em prol da divinização de nossa espécie, tem exercido um poderoso efeito de cabresto na dinâmica de nossa sociedade. Controlar o passado (através manipulação do registro histórico e da proposital negligência no ensino da História) é quase uma garantia de salvaguardar a legitimação das estruturas de poder vigentes. Do mesmo modo, ao negar a ascendência comum de nossa espécie com todas as outras deste planeta (nós e o espinafre temos a mesma tatatatatatatatatatatatatataravó), a superioridade humana sobre o planeta toma forma. Superioridade esta absolutamente questionável, sob amplos aspectos científicos. A superioridade humana sobre os demais seres vivos da Terra só pode ser legitimada através de uma perspectiva criacionista. Entristece-me profundamente ver cientistas renomados – muitas vezes alegadamente ateus – compactuarem com práticas que promovem a utilização indigna de outros seres vivos para fins científicos.

É no mínimo uma atitude hipócrita, para não dizer grotesca. Mas, enfim, este é o ponto em que gostaria de chegar: até que ponto nossa cegueira social se alastra? Pois, para a maioria da população de baixa renda, a simples falta de educação, o excesso de trabalho e a constante exposição à programação da TV aberta é o suficiente para que os cabrestos estejam apertados e em bom funcionamento. Porém, para a pequena parcela da população exposta a uma maior fonte de informação, são necessários mais elementos para azeitar a máquina que perpetua condicionamentos baseados na ignorância. É preciso que essa informação não surta nenhum efeito sobre o cérebro de seu receptáculo. Sabemos sobre evolução, mas nos comportamos como criacionistas. Sabemos sobre o efeito nocivo dos venenos, mas estamos constantemente ingerindo-os em nossa comida. Sabemos sobre a origem social da violência, mas preferimos construir grades cada vez mais altas. Sabemos sobre as conexões do ambiente, dos ecossistemas e dos seres vivos, mas continuamos a consumir freneticamente qualquer porcaria anunciada com o glamour da televisão. Simplesmente pela pueril ilusão de que, enquanto ignorarmos que somos escravos, não seremos escravos. Enquanto ignorarmos nossa estupidez, não seremos estúpidos. Enquanto ignorarmos a mão que nos manipula, teremos algum livre-arbítrio. Pode-se supor que, enquanto nas camadas mais baixas a ignorância é simplesmente imposta, nas altas camadas da sociedade ela é vendida e comprada, barganhada como um must have cravejado de diamantes. Eu vejo a ignorância estampada nos olhos de ricos e pobres, homens e mulheres, todas as idades, credos, cores... A ignorância imposta, a ignorância comprada, a ignorância usada como uma droga necessária para o alívio de uma rotina estafante, um ópio, um gás hilariante, um sedativo forte que cobre o espelho da consciência e gera inação. A ignorância é até mesmo um fator de coesão social: aquele que sabe e questiona é excluído, muitas vezes humilhado, queimado em fogueiras inquisitivas. O dogma é a coqueluche dos grandes grupos sociais. Afinal, em terra de cegos, quem tem um olho não é rei: é herege.
segunda-feira, 4 de abril de 2011
Catarina e a imutável simbologia da morte
Os símbolos trazem consigo um conjunto pré-concebido de idéias, um pacote de pré-concepções digeridas em massa, muitas vezes dogmáticas, que levam à inércia cerebral. Levam ao acomodamento. Nossa época é única. Nossas vozes são únicas. As bandeiras e as vozes do passado inspiram, mas não podem balizar por completo nossas atitudes, pois nosso tempo é outro. Não que eu acredite ser possível viver sem símbolos, seria ingênuo do mesmo modo. Até mesmo por que, na minha concepção, o trabalho sinérgico de nossas terminações nervosas, nossa química corporal e nossas reações ao ambiente externo se dão através de símbolos. Indaguei-me então sobre um símbolo especial... a caveira.
Embora a conotação da morte seja muito diferenciada nas variadas culturas, temporal e espacialmente, a figura da caveira nos vem relembrar uma verdade tão simples quanto profunda: a nossa efemeridade. A caveira nos faz enxergar a dureza de nossa fugacidade que se esconde sob a pele macia de nosso ego. A morte que iguala a todos. Inevitável, assustadora, libertadora e admirável morte. Medo e fascínio. Aquela que coloca o contraponto a tudo que acreditamos: nosso ser. Um símbolo que não sofre modificações interpretativas com o decorrer do tempo, pois sobrepuja a todas as sociedades, modos de pensar, de viver, de se experimentar enquanto ser planetário.
Acredito que uma das mais carismáticas personagens da simbologia mexicana para o Dias dos Mortos é Catarina, uma elegante dama da sociedade que serve como lembrete de que as diferenças sociais não fazem diferença na hora da morte. Vestir o paletó de madeira sobrepõe-se a todas as espécies, aos bons, maus, infiéis, fiéis, ateus, poetas, bêbados, santos e criminosos. Felizes ou tristes, ricos ou pobres, de alma ou de bens materiais, todos somos feitos da mesma matriz de matéria e energia, e para ela voltaremos. O simples sorriso de uma caveira vem ironicamente trazer à tona aquilo que a maioria das pessoas quer tentar esquecer: que elas estão vivas, e que essa é uma chance única. É, vai ter uma caveira ao lado do meu toca-discos.
terça-feira, 22 de março de 2011
ENTRE O BIZARRO E O NORMAL... APENAS UMA ESCOLHA.






